terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Capítulo 2 – Uma fatalidade

Depois de se vestir, Sarah desceu as escadas e saiu de casa, caminhando por sua rua. O céu começava a escurecer e as nuvens acinzentadas, carregadas com chuva, cobriam a lua e as estrelas. Dobrou a esquerda ao chegar ao final da rua e parou em frente a uma casa de tamanho médio que lembrava bastante a dela – se não fosse pelo muro branco e o portão avermelhado. Ela se aproximou da entrada e colocou o dedo sobre a campainha.

- Bem, aqui vou eu – disse para si mesma, apertando o botão.

Ela escutou o ressoar da campainha em um tom baixo, como se viesse dos fundos da casa. Após alguns minutos, ouviu passos apressados em direção a ela. A pessoa parou, fungou e finalmente, abriu. Era a mãe de Regina, Sra. Lima, estava com o rosto um tanto inchado e as bochechas bastante vermelhas, parecia que estivera chorando. Sra. Lima puxou as abas de seu casaco, de lã na cor creme, e abraçou o peito para se proteger do frio.

- Sarah – disse ela passando as mãos sobre os cabelos castanhos e desajeitados. – Que bom ver você – ensaiou um sorriso. – O que faz aqui?

- Vim falar com Regina, ela está?

- Si... – foi interrompida por um grito que vinha de dentro da casa. A mulher apertou os olhos e disse: - Ela está sim, vou chamar. Espere só um minutinho.

Sra. Lima deu as costas e fechou a porta com um baque. A jovem se virou e começou a caminhar enquanto olhava para o céu. Ouviu o ranger do portão novamente e Regina surgiu. Não parecia a mesma garota do colégio, segura e elegante. Estava com um rabo de cavalo idêntico ao de Karina e seu rosto, mais envelhecido, ela aparentava ter uns trinta anos. As pálpebras estavam vermelhas como as da mãe e vestia uma blusa de manga comprida.

- O que você quer aqui? – indagou com a voz trêmula.

- Eu queria conver... – parou, pois algo lhe chamou atenção.

Sarah notou um arranhão no braço da garota e seu olhar se fixou ali. Regina percebeu e puxou as mangas da blusa enquanto cruzava os braços.

- Diga logo o que veio fazer aqui! – vociferou.

- Não fique nervosa. Só vim me desculpar.

- Bom, se é tudo.

- O que houve Regina, onde se cortou assim?

- Não é da sua conta – disse ela dando as costas.

Sarah a segurou pelo braço e ergueu a manga. O arranhão se estendia por todo o antebraço. Pegou na outra mão da garota e procurou por mais cortes: o braço esquerdo estava com pequenos hematomas e um contorno avermelhado na forma de uma mão, como se a garota tivesse sido segurada com força. A jovem ergueu os olhos para Regina e viu que seus olhos enchiam de lágrimas.

- Quem fez isso? - a garota caiu em prantos e abraçou Sarah com força. – Vamos sair daqui – disse ela conduzindo-a até uma calçada longe dali, onde sentaram. – Agora me conte o que aconteceu.

- Por que eu deveria desabafar com você se não somos amigas?

- Seríamos se você não tivesse se tornado tão arrogante!

- Eu?!Você era a única amiga que eu tinha e quando aquela fazendeira apareceu você me esqueceu completamente!

- Isso não é verdade.

- Não é?!Nós andávamos sempre juntas até que entramos no ginásio. Muitas pessoas ficaram em salas diferentes e você caiu na daquela garota!A partir de então esqueceu que eu existia – disse ela ainda em prantos.

- Você se afastou!Eu mal te encontrava e quando nos víamos você estava sempre calada pelos cantos!

- Eu estava passando por uma fase, meu pai nos abandonou quando eu tinha onze anos sem se despedir ou deixar algum recado para mim, simplesmente sumiu – ela agora soluçava. – E minha mãe arrumou outro assim! – estalou os dedos.

Sarah ficou paralisada com os olhos arregalados.

- Foi ele que fez isso com você? Seu padrasto. Foi ele quem te machucou?

- Ele é um bêbado desequilibrado que grita o tempo inteiro e bate na minha mãe – deus algumas fungadas e enxugou as lágrimas. – Geralmente deixo eles se entenderem, mas hoje, os gritos dela me deixaram agoniada e corri para ajudá-la... – fez uma pausa para tomar fôlego, pois os soluços não a deixavam falar. -... Ele apertou meu braço e me jogou contra o chão. Quando tentei me segurar em alguma coisa, meu braço bateu na quina da mesa.

- Isso é terrível – disse Sarah com os olhos cheios de lágrimas.

- Por isso ajo daquela maneira na escola, lá é o único lugar onde sou forte, com um grupo sempre atrás de mim e pessoas que têm tanto medo que não teriam coragem para me mal tratar – a jovem ficou ereta, suspirou e enxugou as lágrimas.

- Mas isso é errado Regina, você afasta as pessoas quando deveria trazê-las para perto de você. Fazer amizades verdadeiras. Assim você teria no colégio a alegria que você não tem aqui com pessoas sempre dispostas a lhe dar um ombro amigo – fez uma pausa. – Afinal por que não denunciam esse monstro?!

- Minha mãe tem medo Sarah. Medo do que ele possa fazer.

Sra. Lima surgiu na entrada da casa e gesticulou para que Regina entrasse.

- Foi bom conversar com você – disse ela pondo-se de pé e abrindo um sorriso verdadeiro, como em muito tempo Sarah não via. – Até amanhã.

- Até – despediu-se Sarah.

Após caminhar alguns minutos até sua casa, Sarah entrou lentamente. Não havia ninguém e tudo estava um tanto escuro na sala de estar. Ela caminhou até a despensa da cozinha retirando algumas barrinhas de chocolate e um pacote de cheetos, depois subiu as escadas e entrou em seu quarto, colocando-os dentro da bolsa. Entrou no banheiro e foi escovar os dentes.

Quando terminou, abriu um sorriso exagerado para ver se estavam realmente limpos. Enquanto passava o fio dental, sentiu um arrepio se espalhar por seu corpo, seguido de sussurros que começou a ouvir. Eram os mesmos murmúrios que ouvira quando havia terminado de tomar banho durante a tarde. Balançou a cabeça como se fosse apenas uma ilusão, e continuou o que estava fazendo.

Quando as vozes começaram a ficar cada vez mais altas e insistentes ela começou a ficar nervosa. Jogou o fio dental no lixeiro e caminhou para o quarto. Lá estava o livro. As vozes ficavam cada vez mais altas como se o objeto chamasse por ela. A cada passo desconfiado seu coração batia tão rápido que lembrava o bumbar de tambores. Ela engoliu em seco e disse:

- Tá legal, agora sim está começando a me assustar.

Franziu a testa enquanto se perguntava por que ele fazia aquilo. Pegou-o e o colocou sobre o colo, o som desapareceu. Passou as mãos sobre a capa admirando seus belos desenhos e símbolos. “Gostaria de saber o que significam” – pensou.

Abriu o livro e examinou cada página com calma, como não tinha feito antes. Ao final dele ela encontrou uma frase. “Você não estava aqui antes!Pelo menos não que eu tenha notado” – disse para si mesma. Passou a mão sobre a página amarelada depois leu em voz alta:

“Uma nova esbael de outro mundo virá,

com a ajuda deste livro no tempo voltará

e quando o protetor nomear,

o guiará para ao povo ajudar.”

- Esbael? – perguntou Sarah a si mesma – Eu ein!Este livro é sinistro, tenho que me livrar dele o mais rápido possível.

A garota fechou o livro com um estalo colocando-o sobre a cama e levantando-se dela, alguns segundos depois o objeto começou a brilhar, ela apanhou a vassoura que havia deixado perto da cama, armando-se novamente. As páginas do livro começaram a se folhear sozinhas. Sarah arregalou os olhos. O objeto saltou sobre ela, que o segurou com a mão esquerda enquanto a outra tentava retirá-lo, mas estava grudado. A garota pegou a mochila e começou a bater no livro, ainda preso à sua mão esquerda, mas de nada adiantou. Ela sentiu um formigamento no pulso e depois, tudo ficou escuro.

Sarah sentia um cheiro estranho de grama molhada depois de uma chuva de inverno. Apertou os olhos ainda fechados como se estranhasse o ambiente. Foi abrindo-os aos poucos, havia um borrão em sua visão, um mesclado das cores marrom e verde. Piscou os olhos rapidamente na tentativa de tornar as imagens mais nítidas. Quando finalmente tudo em sua vista voltou ao normal, Sarah se sentou e colocou a mão sobre a cabeça, que doía de tal maneira que parecia que ela tinha levado uma pancada muito forte.

Ao deslizar a mão sobre a testa, notou um desenho estranho em seu pulso esquerdo, um desenho que se parecia com a capa do livro – a coroa no meio e sete símbolos menores ao seu redor. Arregalou os olhos e esfregou o pulso para ver se saía, mas o desenho estava tão firme que parecia uma tatuagem feita com tinta permanente. Procurando acalmar-se, ela olhou em volta. Viu diversas árvores com tamanhos variados, de trinta a quarenta metros de altura, com troncos muito grossos, galhos retorcidos e uma cor verde exuberante em suas folhas. O ambiente da floresta era um pouco úmido.

- Uma floresta?! Como eu vim parar aqui? – perguntou Sarah a si mesma. – Não é possível, isso tudo só pode ser um sonho.

Ela ouviu um barulho de galhos sendo quebrados enquanto eram arrastados e virou-se para ver o que era. A única coisa que conseguiu identificar atrás de uma das árvores foi uma pequena cauda de cor vermelho fogo. Sua respiração acelerou e seu coração estava prestes a sair pela boca a qualquer momento.

- Eu não vou ficar aqui para descobrir. – murmurou.

Sarah ficou rapidamente de pé e apanhou a mochila e o livro, que estavam ao seu lado. Colocou o objeto dentro da bolsa e saiu correndo floresta adentro. Por mais que ela se distanciasse, o barulho se aproximava de novo a uma velocidade surpreendente. Sarah não fazia idéia de onde estava, só via árvores e mais árvores em seu caminho, decidiu correr em linha reta sem olhar para trás “Quem sabe assim chegarei ao final da floresta” – pensou.

Depois de uns quinze minutos que pareceram horas, ela começou a ouvir o barulho de uma corredeira, fez uma pausa, estava ofegante por causa de sua corrida frenética. Olhou ao redor procurando ver de onde vinha aquele som. Optou por pegar o caminho da direita e correu novamente por entre as árvores, até que finalmente avistou um riacho ao longe. Ela fez uma pequena pausa, sorriu e continuou o seu percurso.

Pisou nas águas do rio e continuou a correr, mas houve um momento que ela não saia do lugar e era como se estivesse deslizando, tentou equilibrar-se, mas a pedra em que estava era muito escorregadia. Sarah cedeu e sentiu uma dor sufocante percorrer sua espinha, prendeu a respiração instintivamente na tentativa de diminuir o sofrimento. O barulho que ela havia deixado para trás agora se aproximava, o medo tomou conta de seu ser, a dor era tanta que ela não conseguia pôr-se de pé. Sentia a água do riacho tocar em seu rosto enquanto batia na pedra em que ela estava deitada.

Apertou a mão direita que segurava a mochila, para que sua fraqueza não a deixasse escapar. Respirou fundo e tentou se sentar, suas costas e seu cabelo estavam molhados. O som assustador estava perto agora, ela podia sentir. Virou a cabeça para a direção do barulho e alguma coisa começou a surgir por entre as árvores, até que a imagem de uma cobra gigante surgiu. O animal deveria ter no mínimo uns vinte metros de comprimento, tinha a cor vermelho fogo, com alguns círculos pequenos de cor laranja que se espalhavam por sua pele escamosa e dois pequenos espinhos na ponta do nariz.

Sarah ficou paralisada, não podia correr mesmo que esta fosse a sua vontade. O animal serpenteou em sua direção, atravessando o riacho. A jovem sentiu como se algo invadisse a privacidade de sua mente, a cobra gigante a encarava com os olhos apertados, mas não demonstrava nenhuma reação de que iria atacar. Seus pensamentos estavam confusos, lembranças de sua infância, de seu sonho e de como tinha encontrado o livro passavam rapidamente em sua cabeça à medida que a criatura gigante se aproximava dela.

A cobra estava muito perto agora, e Sarah podia sentir o hálito quente da criatura envolver seu rosto. Fechou os olhos procurando controlar o medo que sentia naquele momento. Suas lembranças começaram a passar mais lentamente, até que cessaram.

A jovem sentiu a respiração da criatura desaparecer, depois ouviu um barulho atravessar o riacho e se enfiar no meio da floresta. Abriu os olhos e a serpente gigante havia desaparecido. Uma sensação de alívio tomou conta de seu ser. Colocou a mochila nas costas e virou-se para o caminho contrário ao que a criatura havia tomado.

Deu um salto ao ver sete pessoas estranhas vestidas em roupas pequenas. Estavam armadas com adagas e algumas delas com seus arcos e flechas. Todos tinham cabelos escuros como a noite e olhos de cor vermelho rubi. Uma mulher que estava no grupo se aproximou – seu olhar era penetrante, usava uma blusa marrom enfeitada com algumas folhas que deixava sua barriga magra a mostra, usava também um shorte curto que acompanhava a blusa, e botas de cor marrom feitas de couro, além de uma pintura azul bem exótica no rosto.

A mulher colocou a ponta de sua adaga no pescoço de Sarah, estudando-a. Ela franziu a testa e falou para os companheiros:

- Ko odes nod uden? (De onde ela saiu?) – olhou para a garota de cima à baixo e sorriu – Wos rothas udenmajis (Que roupas estranhas) – os companheiros riram.

- Y wos va danieb wos goth lon mod? – vociferou uma das pessoas do grupo.

A mulher pegou Sarah pelos ombros e girou-a de modo que ficasse de costas para ela, puxando bruscamente a mochila.

- Hei! – gritou a garota – Me devolva isso! – deu um passo para frente, mas recuou quando várias flechas foram apontadas para ela.

A estranha guardou a adaga em sua cintura e segurou a mochila em cada uma de suas extremidades, puxando com força na tentativa de abri-la. Sarah riu e tentou tocar na bolsa, mas novamente flechas foram apontadas para ela. A garota olhou bem no fundo dos olhos da mulher e disse:

- Eu não vou te machucar.

A mulher apertou seus olhos vermelhos com desconfiança, em seguida virou a cabeça para os companheiros e balançou-a em sinal positivo. Imediatamente, todos abaixaram suas armas. Sarah pegou a mochila e abriu o zíper do bolso maior, entregando-a para a mulher, que sorriu impressionada com a facilidade com a qual a jovem tinha aberto aquele objeto tão estranho para ela.

Ela enfiou a mão dentro do bolso e começou a vasculhar os objetos, enquanto retirava-os e lançava aos companheiros coisas como: as barrinhas de chocolate, balas de hortelã e o pacote de cheetos que Sarah havia guardado para levar à escola no dia seguinte. Um tempo depois, a mulher parou de mexer nas coisas e arregalou seus olhos brilhantes virando-os para Sarah.

A estranha fechou o zíper do bolso e atirou a mochila para os companheiros, em seguida pegou Sarah pelo braço direito e foi passando a mão por ele, a procura de algo. Pegou o punho esquerdo e analisou-o até que viu o símbolo estampado em seu pulso. A mulher recuou e colocou uma das mãos sobre a boca como se tivesse se assustado com a tatuagem da garota. As outras pessoas do grupo, que a acompanhavam, começaram a sussurrar entre si ao ver o desenho: rogesh.

- Me waldir tiras-ko odes mod o vandar.

Ao dizer isso duas pessoas do grupo caminharam até Sarah e a seguraram pelos braços, arrastando-a para o caminho que a cobra havia tomado. A garota entrou em pânico e começou a firmar os pés no chão, lutando contra as pessoas estranhas.

- Não! – gritava ela – Tem um monstro aí dentro e acreditem, eu não estou nem um pouco a fim de ser comida!

- Cale-se humana! – disse a mulher.

Sarah lançou-lhe um olhar de surpresa.

- Quem são vocês? – indagou a garota lentamente.

- Nada de informações por enquanto, apenas confie em nós.

Sarah olhou para o chão, pensativa. Ela parou de lutar contra os seres estranhos e deixou que a levassem, caminhando floresta adentro. Algumas das pessoas do grupo os seguiam enquanto andavam de costas, armados com seus arcos e adagas, como se protegessem algo muito importante. Enfim, pararam de andar ao chegarem a uma árvore que aparentava ter uns sessenta metros de altura – era a maior em toda a floresta.

A mulher se aproximou da árvore e deu três batidas nela, uma escada feita de corda e um pouco de madeira – que formava os degraus – foi lançada. Ela se virou para os dois homens que seguravam Sarah e gesticulou com a mão. Eles a levaram para a escada e mandaram que ela subisse.

Sarah segurou-se nas extremidades da escada bamba e frágil, e começou a subir até o topo. A garota virou-se e olhou para baixo, avistando a mulher logo atrás dela, depois, continuou seu percurso. Ao chegar ao topo, Sarah viu uma enorme casa construída sobre a árvore. Na entrada dela havia dois homens vestidos exatamente iguais aos companheiros da mulher, a única diferença é que eles seguravam uma lança enorme – cada um – feita de madeira com uma adaga presa no final, que formava a ponta da lança.

Ela ficou deslumbrada com a construção. Era simples, mas muito bonita. O chão era feito de tábuas de madeira que pareciam ter sido feitas à mão, além de serem desgastadas e polidas por constantes passadas. Sarah observava tudo nos mínimos detalhes, até que a mulher finalmente chegou ao topo. A estranha segurou em seu ombro e a conduziu para um portão a uns dois metros de distância de onde elas estavam.

Na frente do portão havia uma mulher com características semelhantes a que a acompanhava, mas linhas espalhadas por seu rosto e alguns pés de galinha em seus olhos diziam que ela era mais velha. A mulher se aproximou.

- Wos waron? (O que quer?) – indagou.

- Eteri agu tui vreon algos. (Estou aqui para ver nosso líder)

A mulher mais velha olhou para Sarah franzindo a testa. Depois, afastou-se do portão de madeira esculpida com alguns desenhos e gesticulou, abrindo o caminho para que pudessem passar. A acompanhante de Sarah empurrou o portão e ambas entraram.

A jovem pôde ver não muito distante, uma cadeira com um encosto grande feito de madeira e um homem sentado nela inclinado para frente apoiando o rosto sobre uma das mãos. Ele usava uma fita de couro ao redor da cabeça que o destacava dos demais, e sua pele era limpa sem qualquer sinal de rugas ou cicatrizes - ele aparentava ter uns vinte e poucos anos. Elas se aproximaram, Sarah viu a mulher ajoelhando-se e fez o mesmo. A desconhecida olhou para o chão e disse:

- Far gol, vassildador lars aesire ne forthiron.

O homem se levantou calmamente de seu trono rústico e se aproximou das duas. Sarah ergueu a cabeça com curiosidade para ver o que ele iria fazer. Ele tocou no ombro da mulher e ela ficou de pé. Olhando-o com respeito disse:

- Thirieri wos ek porth bre rogesh.

O homem virou a cabeça rapidamente para a mulher repetindo: rogesh? .Quando ela balançou a cabeça afirmativamente, ele arregalou os olhos, espantado.

- Ador valesh wos gloin lo melka novas.

A mulher fez uma reverência e se retirou. Sarah permanecia ajoelhada. O homem deu as costas para ela e sentou-se novamente em seu trono.

- Pode levantar-se.

Sarah obedeceu.

- Então você é a nova Esbael? – perguntou ele educadamente enquanto descia os degraus que iam de encontro a sua cadeira rústica.

- Agora que o senhor mencionou, eu realmente gostaria de saber o que é isso.

- Então você não é a Esbael?

- Não sei responder – respondeu ela calmamente – Primeiro eu tive um sonho esquisito com uma mulher sendo perseguida que carregava um livro estranho que por coincidência, acabou caindo em minhas mãos. Este objeto estranho pulou em cima de mim e me deixou inconsciente. Quando eu acordei, estava nessa floresta com uma tatuagem esquisita no pulso, com uma cobra gigante atrás de mim e quando pensei que tivesse me livrado de tudo, um monte de pessoas armadas estavam atrás de mim. – disse ela freneticamente.

- O que é uma tatuagem? – perguntou o rei calmamente.

- Tá brincando né? – disse ela com um sorriso irônico, mas ao perceber que o homem realmente não sabia o que era, pôs-se a explicar: – Uma tatuagem é um desenho que você faz no corpo entende?

- Entendo, deixe-me ver a sua “tatuagem” – disse ele estendendo a mão.

Sarah se aproximou dele e estendeu o pulso esquerdo. O homem passou a mão sobre o desenho e disse:

– Parece-me que ainda não sabia, mas você é sim, a nova Esbael. Você é muito importante para a proteção do livro de pórion e para todos nós.

- Livro de pórion?Tá falando daquele livro esquisito que fez esse desenho no meu pulso?

- Isso mesmo, Você o tem aqui com você?

- Está guardado na minha bolsa, que está com alguma das pessoas que me pegaram na floresta. – respondeu Sarah.

- Guarde este livro com a sua vida! – disse o homem, mudando rapidamente o tom de voz doce para um mais sério. – Ele não pode cair em mãos erradas está entendendo?

Sarah se assustou, mas balançou positivamente a cabeça.

- Este objeto é o mapa para os quatro artefatos de pórion e você é a guardiã deste mapa.

- Eu tô ficando confusa, poderia me explicar o que está acontecendo?Quem são vocês?O que é uma Esbael? Que artefatos são esses? E quem são as pessoas que não podem pegar o livro?

- Tenha calma, irei responder a cada uma de suas perguntas. – Ele caminhou até ela e a conduziu para uma porta que ficava a esquerda dele. – Vamos para um lugar onde possamos conversar com mais conforto.

Ao ultrapassarem a porta, entraram em uma sala onde havia uma mesa quadrada com quatro cadeiras ao redor. A sala era iluminada por duas janelas e através delas, podiam ver a floresta por onde Sarah havia passado. O homem gesticulou para que a garota se acomodasse em uma das cadeiras, em seguida sentou-se também.

- Então, o que quer saber? – perguntou ele cruzando os dedos de forma que as palmas das mãos se encontraram.

Capítulo 1 – Estranhas coincidências

Levantou-se do colchão e observou o computador sobre a mesa, ao lado da cama de solteiro. Em frente a ela havia uma cômoda com uma pequena televisão, e no lado oposto, um guarda-roupa. A jovem se retirou do quarto e caminhou até a cozinha, onde abriu a geladeira e retirou uma jarra de vidro que continha água, despejando um pouco do conteúdo em um copo que retirara do armário.

Cada vez que bebia o líquido, imagens de seu sonho surgiam em flashes. Cerrou os olhos de forma vagarosa, na esperança de esquecê-las, mas ainda assim, só lhe traziam dores de cabeça. Por fim, concluiu que seria melhor voltar para a cama e tentar dormir novamente.

Sarah terminou sua bebida, molhou o copo na torneira e o guardou dentro do armário. Depois, caminhou a passos lentos até seu quarto, mergulhando sobre a cama e agarrando o travesseiro. Levou algum tempo para que sua mente, infestada de pensamentos, finalmente se acalmasse, e então, adormeceu.

Tomou um susto, na manhã seguinte, ao ouvir o som escandaloso que o despertador emitia. Ela estendeu a mão e o desligou, sentando-se calmamente e esfregando os olhos enquanto sentia o calor dos raios do sol, que invadiam o cômodo através da janela de vidro, tocar-lhe o rosto. A jovem bocejou ao observar o uniforme do colégio sobre a mesa. Com muita determinação, pôs-se de pé e caminhou até o banheiro, onde apoiou as mãos sobre a pia, inclinando-se para frente enquanto se olhava no espelho: o rosto inchado e as olheiras profundas que contornavam seus olhos eram as marcas da noite mal dormida.

Sarah retirou suas vestes e entrou no Box, onde ligou o chuveiro. A água gelada que escorria por seu corpo moreno, tirava-lhe o fôlego. O silêncio presente no ambiente era quebrado por sua respiração acelerada. O banho a deixava muito menos agitada do que estava e, aos poucos, as lembranças do sonho começavam a esvaecer. Quando terminou, envolveu-se em uma toalha e foi até o quarto enquanto penteava os cabelos com um pente fino. Depois vestiu o uniforme, pegou a mochila e saiu.

Ao descer as escadas, viu a mãe – uma mulher elegante com cabelos negros e curtos, que aparentava ter menos de quarenta anos – sentada no lugar de sempre. O pai – homem de negócios que passava a maior parte do tempo vestindo um terno, pois nunca parava de trabalhar, tinha cabelos castanhos e uma barba que seguia o molde de seu rosto – bem ao lado dela, e seu irmão – era idêntico ao pai, só que muito mais jovem e não tinha barba – em frente.

- Bom dia querida – disse Laiza.

- Este país está errado! – disse Rafael, fazendo uma pausa para cumprimentar a filha. – É um país sem o mínimo de interesse de investir em educação, endividado, tremendamente violento e onde a desigualdade social extrapola todos os limites!

A mesa era larga e havia uma grande variedade de comidas. Havia pães guardados em uma cestinha feita com leves tiras de madeira de cor escura e dois potes pequenos com geléias de morango e uva. Uma jarra com suco de maracujá e uma com água ficavam no centro, ao lado de uma garrafa térmica que continha café. Frutas de todos os tipos ficavam sobre uma fruteira ao lado da manteiga e do requeijão. Sarah puxou uma cadeira e se acomodou, enquanto ouvia o pai criticar o governo do país. Ela pegou a xícara e o pires, que estavam sobre seu prato, e os colocou a certa distância. Depois, pegou um pão no monte da cestinha e o cortou, passando um pouco de geléia por dentro. Em seguida, encheu seu copo com água e deu uma mordida no pão.

- Concordo com você pai – disse Mick, seu irmão mais velho. – E o pior de tudo não é isso, é que por mais que saibamos que tudo precisa de conserto, ainda assim, as pessoas continuam colocando o mesmo incompetente para governar o país.

- É por isso que eu digo: O povo gosta de ser enganado!

Quando terminou a metade do pão, observou que o relógio preso à parede marcava seis e quarenta e cinco, o que significava que faltavam apenas cinco minutos para que seu ônibus chegasse. Sarah largou a comida sobre o prato e bebeu a água rapidamente enquanto ainda escutava as críticas do pai sobre o mesmo tema. Aquela conversa todas as manhãs sobre política durante as refeições a entediava, mas ela não podia deixar de concordar com a forma com a qual seu pai e seu irmão pensavam.

- Bom, a conversa está boa, mas tenho que ir ou me atrasarei para a faculdade. – despediu-se Mick dando um beijo na mãe e passando a mão sobre a cabeça da irmã.

Sarah ficou de pé rapidamente e, olhando mais uma vez para o relógio, colocou um biscoito na boca e disse:

- Também tenho que ir, acordei tarde e vou acabar me atrasando. Tchau pai, tchau mãe – retirou-se, ignorando as reclamações da mãe sobre o pão que deixara no prato.

A jovem pegou a mochila que havia deixado sobre o sofá e saiu pela porta da frente. Passeou pela calçada durante os minutos que seguiam sua ansiedade, e então, o ônibus surgiu. Sarah subiu os degraus e caminhou até o final do veículo, sentando-se ao lado de sua melhor amiga, Karina – a garota usava uns óculos com lentes bem grossas "fundo de garrafa" e passava a maior parte do tempo com os cabelos loiros presos – formando um rabo de cavalo bem folgado. Tais características faziam dela uma garota esquisita e feia, mas com um coração enorme.

Era de costume que a jovem sentasse no final do automóvel e conversasse com a amiga durante o percurso para o colégio, pois assim, evitavam ao máximo os comentários sarcásticos freqüentemente direcionados a elas pelos colegas. Apesar de serem motivo de piada para os alunos, ainda assim eram felizes por terem a amizade uma da outra.

- O que houve com você? – indagou Karina. – Parece cansada.

- Não foi nada, só tive um sonho um tanto estranho na noite passada e acabe... – foi interrompida por uma bolinha de papel que acertara os óculos de Karina.

- Hei fazendeira! – gritou uma jovem em um grupo composto por garotas magras e bonitas que usavam uma variedade de agasalhos em um tom cor de rosa. – Por que essa blusa molhada?Esqueceu de se trocar quando regou a horta? – disse ela enquanto ouvia as amigas rirem de sua imitação caipira.

Karina ajeitou os óculos que escorregavam pelo nariz e apertou os livros enquanto se encolhia no banco. Sarah respirou fundo, tentando controlar sua raiva, e encarou a patricinha arrogante, depois se voltou para a amiga e perguntou se estava tudo bem, ela assentiu. Sarah segurou-se no banco ao sentir a brecada violenta que o ônibus havia dado e desviou seus olhos para o chão, quando algo lhe tocou os pés. Ela franziu a testa e abaixou as mãos procurando alcançar o objeto.

- O que é isto? – indagou enquanto o colocava sobre as pernas.

- Que pano velho – comentou Karina.

Sarah retirou o pano que envolvia o objeto retangular e viu que era um livro, que por alguma razão lhe parecia familiar, fechou os olhos na tentativa de se lembrar de algo. “Meu sonho!” – pensou. A jovem ficou pálida e hipnotizada ao mesmo tempo, um calafrio percorreu o seu corpo. Mais perguntas além das outras antes semeadas surgiram em sua mente: “Se o meu sonho era no passado, o que este objeto do passado faz em meu tempo?” – perguntou para si mesma – “Não, deve ser só uma coincidência”.

- O que foi?

- N-nada – gaguejou Sarah fazendo uma pausa – Se este livro está aqui no ônibus é porque alguém da escola o pegou, e como não sei quem foi acho melhor levar para a biblioteca do colégio.

- Depois você resolve isso.

- OK.

O ônibus enfim, havia chegado a seu destino. Karina e Sarah esperaram todos descerem do veículo, para que não corressem o risco de serem empurradas para fora, como era de costume.

Ao descerem, se dirigiram para a entrada da escola e caminharam por um enorme corredor repleto de portas e com armários encostados à parede. Sarah abriu o seu e guardou o livro que havia encontrado no automóvel, caminhando em seguida para sua sala. Acomodou-se em uma das bancas e retirou um caderno grosso e um estojo pequeno da mochila, ao ver o professor de história entrar. Ele era de tamanho médio e um pouco calvo, com pequenos vestígios de cabelos grisalhos nas laterais da cabeça – era com certeza o melhor professor que Sarah tinha e ela sempre aguardava ansiosamente por uma aula dele.

De alguma forma, os acontecimentos recentes tiravam sua concentração e, aos poucos, todos os sons ao seu redor começavam a desaparecer. A jovem apoiou o queixo sobre a mão e olhou através da janela enquanto pensava sobre o livro e sobre seu sonho com a mulher na noite passada. As folhas de uma árvore, que podia ser vista através da janela, se desprendiam dos galhos e o vento as carregava para longe, lentamente. Cada minuto ali parecia uma eternidade e a pouca paciência que ela tinha já havia se esgotado. Muito tempo havia se passado até que a sirene, anunciando o intervalo, ecoasse pelo corredor.

Sarah pegou seu material e guardou novamente na mochila. Ela ficou de pé e foi até o armário, destrancando-o e retirando o livro, depois, caminhou até o final do corredor e entrou na biblioteca que ficava próxima a sala da diretoria. Ela andou até o balcão de recepção:

- Com licença, achei este livro no ônibus da escola – disse ela enquanto colocava o objeto sobre o balcão.

A bibliotecária pegou o artefato com seus dedos branquelos e ossudos, analisando-o de todos os ângulos possíveis, através das lentes de seus óculos em meia lua. Tocou na capa e deslizou a mão até passá-la, folheando as páginas amareladas cuja grande maioria encontrava-se estragada, e assustou-se.

- Nunca vi este livro por aqui antes! – disse ela passando o objeto para Sarah.

- Como assim?Eu o encontrei no chão do ônibus!

- Tenho certeza de que este livro não nos pertence, a julgar pela capa e pelas páginas amareladas e até estragadas, diria que ou ele é muito antigo ou foi conservado inadequadamente. Olhe só para estas páginas!Nossa biblioteca cuida de livros e não os destrói!

- Entendo.

- Alguém deve tê-lo perdido dentro do veículo.

- Você teria algum dado que possa me informar um pouco mais sobre este livro?

- Se ele tiver um título posso pesquisá-lo para você.

Sarah procurou na capa, depois o abriu olhando as páginas e a contra capa, mas não havia nada. Ela olhou para a bibliotecária e balançou a cabeça em sinal negativo.

- Então sinto muito, não há nada que eu possa fazer para ajudá-la. Agora se me der licença, tenho muito trabalho a fazer – disse ela abaixando a cabeça e observando a jovem por cima das lentes. – Hei você! – sussurrou em tom de reprovação enquanto caminhava até um rapaz que falava com um colega. – A biblioteca não é lugar para conversas se não se acalmarem, vou pedir para que se retirem.

Sarah pegou o artefato e o colocou debaixo do braço, caminhando lentamente para fora da biblioteca. Ergueu o livro na altura da cintura acariciando-o com o polegar sem prestar atenção aonde estava indo. O objeto a deixava perturbada. Era como se o fato – de o livro estar em seu sonho e não ter um dono, estando agora em suas mãos. – estivesse de alguma forma, ligado a ela. Em uma fração de segundos, sentiu uma brisa escorregar por entre seus dedos e o objeto desapareceu de suas mãos. Em um ato de desespero, Sarah moveu a cabeça em todas as direções até pousá-la na garota que zombara de Karina, sua inimiga desde a quarta série, Regina.

Os cabelos castanhos e lisos ficavam presos por detrás das orelhas e seus olhos verdes-esmeralda davam um brilho incomum a seu rosto delicado, mas a jovem era dona de uma expressão sarcástica. Ela e suas amigas – que vestiam casacos cor-de-rosa – eram tão magras que pareciam praticar bulimia, eram jovens insuportáveis cujo passatempo era atormentar pessoas mais humildes ou mais mal arrumadas do que elas. Regina não foi sempre assim, quando eram crianças, ela costumava freqüentar a casa de Sarah pra que as duas pudessem brincar juntas, mas de alguma forma, seu jeito havia mudado completamente e ela tinha se tornado uma pessoa fútil que se achava superior a todos. Mesmo diante de provocações, Sarah procurava controlar sua raiva, pois lá no fundo, acreditava que ela poderia tomar consciência e se desculpar algum dia.

Regina segurou o livro em mãos e folheou suas páginas, ignorando os pedidos veementes da rival para que o devolvesse. A jovem estendeu o objeto e, com desconfiança, Sarah tentou agarrá-lo, mas Regina o puxou rapidamente e deu um sorriso irônico enquanto ouvia as gargalhadas das colegas.

- Eu sabia que você tinha virado uma esquisita ao se tornar amiga da fazendeira, mas não a ponto de colecionar antiguidades como esta – disse ela sorrindo maliciosamente.

Sarah não agüentava mais ser tratada como lixo por aquelas garotas, estúpidas e mimadas. Suas pernas tremiam, suas mãos estavam geladas e sua respiração acelerada, como se a raiva por tudo aquilo que Regina havia feito a ela e a Karina durante os cinco anos desde que viraram inimigas estivesse serpenteando por seu corpo. Apertou os punhos, tentando controlar suas emoções. Sua vontade naquele momento era bater ou chorar, mas sabia que seria insano de sua parte atacar Regina e que chorar seria um convite para mais zombarias.

- Ôuu – disse Regina se aproximando e, fazendo um biquinho, disse: - Vai chorar?

Era a gota d’água. Sarah não podia agüentar mais. Abriu os punhos e correu em direção a Regina, lançando-a contra o chão. Sua mente estava em branco naquele momento e ela segurou os cabelos da rival que instintivamente abriu um berro ao ter a impressão de que seriam arrancados do couro cabeludo. As garotas do grupo se afastaram, boquiabertas.

- Saia de cima de mim sua louca! – berrou Regina.

- Você acha legal menosprezar as pessoas, acha? – disse Sarah puxando mais ainda os fios da rival enquanto os músculos de seu rosto se contorciam.

- Agora chega!

Regina largou o livro e colocou as mãos sobre os pulsos de Sarah, empurrando os braços da jovem durante a inútil tentativa de se libertar. Rugas brotavam entre as sobrancelhas da garota e seu rosto, aos poucos, perdia a palidez e adquiria um tom avermelhado devido à força usada. Não demorou muito para que um círculo se formasse em torno da briga. Ela girou as pernas ao mesmo tempo em que empurrava Sarah para o lado, subindo com rapidez sobre sua oponente. Regina estava distraída quando sentiu um forte impacto atingir seu rosto, fazendo com que caísse no chão. A jovem já se preparava para revidar quando o diretor chegou.

- O que é que está acontecendo aqui? – indagou ele em um tom de voz rouco.

Karina abriu caminho na roda e correu de encontro à amiga. Ajudando-a se levantar. Sarah apanhou o livro no momento em que ficava de pé, observando a rival por um curto espaço de tempo.

- Vamos! Eu quero uma resposta!

- Essa louca me atacou! – respondeu Regina.

O diretor se voltou para a garota.

- Sarah Rodrigues, para a diretoria – ordenou ele, gesticulando.

Ela abaixou a cabeça e sem questionar, caminhou até a sala. Ao entrar, acomodou-se em uma cadeira estofada e observou a plaquinha escrita: Diretor Antonio Oliveira. O homem caminhou para trás de sua escrivaninha, sentando em sua poltrona e apoiando-se sobre a mesa enquanto cruzava os dedos. Seus olhos castanhos e serenos a analisavam por detrás das lentes de seus óculos, como se aguardassem por uma resposta.

- Eu nunca imaginei que uma pessoa boa como você e uma aluna exemplar, fosse capaz de um ato tão impetuoso – disse ele com sua voz grave e tranqüila. – Este é o primeiro dia de aula depois de um mês de férias e você já movimentou a escola.

- Eu não agüentava mais, ela não para de zombar de Karina e fica me provocando o tempo inteiro – defendeu-se. – Desde que eu tinha dez anos agüento essa idiota...

- Cuidado com as palavras Sarah – ele advertiu.

- Desculpe, mas não deu mais pra segurar!

- Eu sei que deve ter sido difícil. De qualquer forma não posso interceder por você... – fez uma pausa. – Devo cumprir meu dever e, como foi você quem começou a brigar, vou ligar para seus pais.

- Mas senhor...

- Sem mas Sarah – interrompeu. – Vá buscar suas coisas e volte.

- Sim senhor.

Sarah ficou de pé, saiu da diretoria e caminhou pelo corredor. Ao entrar na sala, os olhares dos colegas se voltaram para ela, inclusive o de Regina, mas não era de felicidade ou de ironia, muito pelo contrário. Era um olhar de arrependimento que rapidamente foi desviado para a banca onde ela estava sentada. Sarah apanhou sua mochila e se retirou sob murmúrios:

- Se deu mal.

- Acho que ela vai ser expulsa!

- Coitadinha, não merece isso.

A jovem se sentia aliviada de finalmente, depois de tanto tempo, ter tirado um peso de seus ombros, mas não podia deixar de pensar no que seus pais fariam com ela. Entrou na diretoria e se acomodou em um sofá próximo a uma instante de livros. Durante os minutos que se estenderam, o cansaço da noite passada se acumulava e então, acabou pegando no sono. Sentiu algo chacoalhando seu corpo de forma suave e, ao abrir os olhos, lá estava sua mãe.

- Vamos querida – disse ela, virando-se para o diretor e estendendo a mão para que ele apertasse. – Obrigada Antonio.

- Não tem de que Sra. Rodrigues.

- Até logo – disse ela.

Laiza colocou a mão no ombro da filha e a conduziu para a saída. Ao entrarem no carro, Sarah colocou o cinto de segurança e encostou a cabeça na janela, com a mochila sobre as pernas. O carro andou pela avenida até chegar à orla da praia. O mar estava com a maré cheia e a jovem pôde ver as ondas colidirem com a areia, e erguerem-se alguns centímetros, mostrando a cor azul piscina que se misturava com um tom verde claro. De certa forma, o movimento constante das ondas trazia-lhe uma paz interior. O silêncio pairava no ar, até que o carro parou em um semáforo e Laiza disse:

- Eu não acredito que depois do jeito que criei você, de tudo o que ensinei... – fez uma pausa enquanto olhava para a filha. -... Você demorou tanto tempo assim para dar um corretivo nessa garota.

Sarah desencostou-se da porta, franzindo a testa ao observar a mãe.

- Quer dizer que não está brava?

- Claro que não – ela respondeu. – Você nunca mais tinha mencionado essa garota então pensei que ela tivesse te deixado em paz porque talvez você tivesse dado um basta nas provocações dela – o sinal ficou verde e ela colocou o veículo para andar. – Mas nunca teria imaginado que você colocaria um fim nisso de uma forma tão brutal. Violência não leva a nada filha.

- Sei disso mãe, fiz sem pensar, mas me arrependi depois.

- Bem, se realmente se arrependeu, vá se desculpar com ela.

- O que?!

- Você me ouviu. Você já mostrou para ela que paciência tem limite e que você não é um cachorrinho para ela fazer o que bem entender. Agora, tem que mostrar que é superior e civilizada – inclinou um pouco a cabeça para o lado. – Civilizada vai ser meio difícil, mas... – sussurrou.

- Como quiser.

Viraram numa rua feita de calcário e Laiza estacionou o carro na frente de sua casa, que tinha um portão eletrônico e um muro de cor amarela. Sarah deu um beijo na bochecha da mãe e saiu. Ao abrir o portão, Átila, seu golden retriever, veio recepcioná-la. Ela caminhou pelo jardim gramíneo e abriu a porta de correr que levava para a sala, onde havia um sofá de cor laranja e duas poltronas que seguiam o mesmo padrão. Em frente a eles havia uma televisão de plasma presa à parede com um pequeno móvel – abaixo dela. – que abrigava o aparelho de DVD e um aparelho de som. Subiu as escadas com Átila logo atrás. Ao entrar no quarto, colocou a mochila ao lado da cama e mergulhou sobre o colchão.

- Venha cá rapaz – disse ela batendo na cama para que ele subisse.

Sarah marcou o despertador para as treze horas e, Átila deitou a cabeça sobre a barriga dela, acompanhando o movimento de sua respiração. Não demorou muito para que ambos adormecessem. O despertador soou e, na tentativa de desligar, ela o derrubou no chão. Seu cão deu um salto da cama e foi embora. Sarah se espreguiçou e olhou em volta do quarto, suas pálpebras estavam pesadas demais para que ela se levantasse naquele momento. Mudou de posição e voltou a dormir. Depois de muito tempo, que passou voando, a jovem ficou de pé e caminhou até o banheiro, onde se despiu e entrou no Box.

Ao terminar o banho, Sarah teve a impressão de ter ouvido sussurros. Franziu a testa, procurando a fonte das vozes, depois sacudiu a cabeça, envolveu-se em uma toalha e caminhou até o balcão da pia, onde pegou um pente. Os murmúrios ficavam cada vez mais altos e a jovem começou a ficar perturbada. “Será que tem alguém no meu quarto?” – pensou. Apanhou uma vassoura que ficava atrás da porta do banheiro e caminhou calmamente até a maçaneta. Seu coração batia tão rápido que mal conseguia respirar. Apertava tão forte a vassoura que as pontas de seus dedos ficaram brancas. Abriu a porta – de um jeito tão rápido que produziu uma leve brisa, que beijou seu rosto – e ergueu a vassoura sobre a cabeça.

Ela se surpreendeu ao ver que o quarto estava vazio, mas ainda assim, as vozes persistiam. Sarah caminhou pelo quarto e notou que os sussurros vinham de sua mochila. Apoiou a vassoura na cama e abriu a bolsa, no momento em que os murmúrios desapareceram. Apanhou o livro e pegou um bolo de páginas, folheando-o. Cada uma delas parecia estar em branco, sem nenhuma palavra ou desenho que o caracterizasse. Apertou os olhos e fechou o artefato com um estalo enquanto se recordava de tudo o que havia lhe acontecido. “Isso é muito estranho, um sonho no passado com uma mulher estranha e um livro mais ainda, e de repente, este livro vem parar em minhas mãos sem dono algum” – pensou. – “E aquelas criaturas? E a mulher? Quem eram? Nunca tive sonhos como este antes”.

Suas perguntas continuavam sem respostas, a jovem tentava não pensar no assunto, mas aquelas estranhas coincidências não permitiam que as lembranças deixassem sua mente. Jogou o objeto sobre a cama e foi até o guarda-roupa retirando uma blusa regata preta e uma bermuda que ia até os joelhos, colocando sobre a cama.

Prólogo - Noite Sombria

A temperatura havia caído naquela noite sombria. As nuvens acinzentadas encobriam as estrelas do céu, deixando apenas a lua à mostra. O silêncio refletia o medo no coração de Elenwë. Sua capa negra esvoaçava durante a corrida frenética por entre as árvores. A mulher parava constantemente e apertava um objeto de forma retangular que segurava contra o peito enquanto olhava ao seu redor. Estranhas criaturas espreitavam nas altas copas das árvores, se passariam por humanos se seus dois chifres sobre a cabeça e garras parecidas com adagas que saíam de seus pulsos não os denunciassem.

Um dos monstros ergueu a cabeça e fechou seus grandes olhos amarelos enquanto esperava de forma paciente. O vento trouxe consigo um aroma para o nariz da criatura, que sorriu maliciosamente, mostrando seus dentes podres e pontudos. Eis que ele tornou a abrir seus olhos e virando-os para os companheiros, gesticulou com uma das mãos - enquanto a outra se apoiava no grosso tronco da árvore onde estava -, sua ordem era clara.

De imediato, os monstros se jogaram das copas das árvores, aterrissando de forma violenta sobre o chão, e levantando como se nada tivesse acontecido, começaram a locomover a uma velocidade sobre-humana. Mais adiante avistaram Elenwë, que corria o mais rápido que podia.

A mulher não olhava para trás, apenas segurava o artefato que parecia ser tão precioso, quando sentiu um enorme impacto em suas costas, ao cair de barriga no chão, deixou o objeto que segurava escapar. Levou alguns instantes para que ela percebesse o que acontecia. Tentando ignorar a dor, girou o corpo para o lado e chutou o peito da criatura que deu alguns passos para trás, devido ao impacto causado.

Elenwë se levantou de modo rápido e pegou o objeto envolvido em um pano de cor escura, apertando-o contra o peito. Respirando de maneira acelerada, como se temesse aqueles seres repugnantes, ela voltou a segurar seu artefato misterioso com firmeza. Tanto que as pontas de seus dedos ficaram brancas. Ela balançou a cabeça negativamente enquanto recuava a cada avanço dos monstros.

Virou-se para o lado contrário e correu. Fazendo a inútil tentativa de escapar enquanto olhava para trás e os via parados. Então, uma das criaturas correu rapidamente em sua direção e, no momento em que ela virou a cabeça para frente, trombou no ser sombrio. O monstro a segurou pela gola das vestes e ela se debateu sem parar.

O pânico serpenteava por todo o seu corpo, não sabia mais o que fazer para escapar daquelas criaturas. Fechou os olhos lentamente e procurou se acalmar. Abriu-os. Seus olhos verdes agora estavam completamente vermelhos. Uma aura branca se espalhava por seu corpo e com uma explosão de cores, os monstros foram lançados para longe. Algumas árvores que estavam ao redor dela começaram a despencar, espalhando pela floresta um cheiro de queimado.

Esperou um tempo para que pudesse se levantar novamente, tudo ao seu redor começou a girar e as imagens agora não eram mais tão nítidas. Ela tombou e procurou apoiar-se em uma das árvores que haviam sobrado, caminhando lentamente pela floresta. Um dos monstros que havia sobrevivido à explosão avistou-a ao longe, o ódio percorria o corpo da criatura e seus olhos amarelos pareciam duas tochas de fúria.

Ele se levantou e correu na direção de Elenwë, que procurava ao máximo se equilibrar. O monstro se aproximou e a empurrou. A mulher caiu de forma brutal pelo chão e sucos de sangue saíram de sua boca. A criatura se aproximava, caminhando lentamente. Procurando esquecer sua fraqueza naquele momento, ela pôs-se em pé e correu por entre as árvores. Quanto mais corria mais parecia que o caminho não terminava.

As altas árvores da floresta estavam distorcidas em sua visão, ela cambaleava cada vez mais, à medida que corria. Estava ofegante agora. Não sabia por quanto tempo mais poderia agüentar. Seria difícil escapar da criatura e se escapasse, acabaria morrendo de fraqueza por usar inapropriadamente a magia em um momento de desespero. Parou de correr e procurou respirar durante o pouco tempo que lhe restava.

Não importava o que acontecesse tinha que proteger o objeto a qualquer custo. Ela retirou o pano que o ocultava. Era um livro feito de couro, com uma cor marrom. O desenho em sua capa chamava a atenção. Dois dragões formavam a moldura, uma coroa grande encontrava-se no centro da capa e ao seu redor seis símbolos diferentes: uma espada armada em um arco no lugar de uma flecha, e duas espadas cruzadas com três estrelas ao seu redor.

Elenwë passou sua mão delicada sobre a capa do livro procurando senti-lo. Um barulho chamou sua atenção e instintivamente ela olhou para o lado, viu um vulto veloz, passando por entre as árvores e concluiu que seria o último dos monstros. Uma lágrima escorreu por seu rosto. Ela tornou a cobrir o livro e ergueu-o acima da cabeça.

Através de seus lábios, as palavras mágicas foram pronunciadas: Curio bator biteron vrazak lutiorluterin mao frest ga priton trovalend miror detior.

Ao ver a luz azul celeste que envolvia o livro, a criatura procurou apressar-se. Quando chegou a uns cinqüenta centímetros de distância de Elenwë a enorme luz envolveu toda a floresta e quando esta diminui de intensidade, o livro havia desaparecido completamente e a mulher encontrava-se deitada no chão.

O monstro levantou-se enfurecido e caminhou até ela. Estava fraca, mas ainda assim, uma expressão de felicidade tomava conta de seu rosto. Ela gargalhou como se tirasse sarro da criatura e, com uma voz doce e suave disse:

- Tarde demais, se eu não pude protegê-lo, outra pessoa o fará!

O ódio expressava-se através dos olhos amarelos e brilhantes do monstro. Apertou violentamente os punhos, grunhiu e ergueu a mão esquerda de modo que a luz da lua iluminasse sua garra afiada. Sem pena e com satisfação, a criatura cravou a lâmina no peito da mulher, retirando-a em seguida. Sua arma letal encontrava-se manchada de sangue, o monstro lambeu os lábios e direcionou a boca para o corpo dela.

Em seu quarto, Sarah levantou-se rapidamente de seu pesadelo como um mergulhador em busca de oxigênio. Ela respirava ofegante e gotas de suor escorriam por seu rosto. Acariciou os cabelos negros e ondulados por um instante procurando se acalmar e deslizou a mão até a testa. Retirou as pernas de cima da cama de forma vagarosa e apoiou os pés no chão.

Diversas dúvidas haviam sido semeadas em seu cérebro. Por que sonhara com uma cena como aquela?Quem era a mulher que segurava o livro?E o que eram aquelas criaturas? “Foi só um sonho” – pensou – “Mas um sonho muito incomum”.